A vista da Vela Cronicando / Destaque

Sempre gostei dessa vista – a vista da Vela. Meus pés tocam a ponta do ar, como se eu pudesse passear, flutuante, pelas copas das árvores, ou caminhar nas nuvens. Brinco desde criança de jogar as pernas pro ar. Vez ou outra, ainda aposto comigo mesma uma corrida intergalática dançante ao som de “O Bêbado e o Equilibrista”. Em seguida, continuo o triatlon: pedalo corajosamente pelas trilhas tortuosas da minha mente enebriada de significados e significantes. Por fim, ainda com o apoio das mãos sobre as costas, mergulho, triunfante, meus ossudos dedos dos pés no oceano de presença cujas ondas quebram bem atrás da minha cabeça, que – só por agora – encontra-se no chão. É como se a vela de um barco ganhasse vida por alguns instantes apenas para se tornar Arado. A essa altura, meu corpo É o próprio arado, aquele cujo trabalho é varrer as folhas protuberantes das árvores que impedem de ver, com clareza, a simplicidade fecunda do chão de terra batido.

Sempre gostei dessa vista, desse ângulo, desses meus pés ossudos: é por meio desse olhar que eu me permito ser o ar que toca meus pés, a terra na qual eles aterrizam, o mar que invade meus pulmões e o fogo que salpica meus poros. É por meio “disso” que eu me torno, novamente, natureza.

“Isso” é Salamba Sarvangasana (Vela).
Isso é Halasana (Arado).
Isso é Yoga.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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