Está na hora de você reciclar a sua vida. Cotidiano / Destaque / Recomendados

Dia nublado, manhã chuvosa e uma lista generosa de afazeres prazerosos: traços da rotina incansável de quem ama o que faz. O café grita no bule enquanto faço cócegas no mouse a fim de substituir a lambidela na ponta do dedo indicador direito para mudar a página do jornal.

Escolho a revista que, a princípio, parece-me menos parcial. A manchete (ainda chama-se assim em pleno dois mil e dezesseis?) grita que o desemprego subiu ao maior nível desde os últimos quatro anos e a dúvida que fica no ar pesado que os economistas brasileiros respiram é se alta de juros vai aumentar ou conter a famigerada inflação.

É óbvio que a crise financeira que vem tiquetaqueando sua bomba-relógio há alguns anos já bateu à porta de muitos: muitos empresários, muitas empresas, muitas instituições, muitos postos de gasolina, muitos supermercados e muitas bolsas de valores. No entanto, em muitas vielas escondidas atrás de cracolândias marginalizadas, quase ninguém sabe o que significa a tal da inflação.

A crise econômica passa despercebida aos olhos de quem passa despercebido à sociedade. Somos peixes pequenos com a bolsa cheia de grandes valores: a resiliência, a esperança e o amor. Os juros vão crescendo e transbordando pelos zíperes dos bolsos da bolsa: “juro que vai dar certo, juro que as coisas vão melhorar, juro que não vou desistir”. As crianças continuam brincando nas ruas, trocando a moeda da imaginação pelos aviões do tráfico – o tráfico da infância que se leva embora.

As dificuldades batem à porta de todos, enfim, mas há dificuldades e dificuldades; há portas e portas. Nas grandes e imponentes portas talhadas em madeira com detalhes em vidro, reclama-se a alta do dólar. Nas entradas improvisadas de papelão, sentem-se as faltas do lar. Falta dinheiro no caixa dois. Falta comida na mesa. Falta capital de giro. Falta rodar a baiana. Faltam clientes. Sobram pacientes.

Continuando o meu passeio pelas páginas virtuais de notícias quase incólumes, surpreendo-me com a matéria que sussurra violentamente aos nossos ouvidos ateus: “Pobres precisam de banheiro, não de celular”. Perco o ar. Não sou tão pobre assim a ponto de ter de escolher entre saneamento básico e a tecnologia que nos suga a mente para descobrir o caminho mais fácil que desperte nosso desejo consumista intrínseco. No entanto, há escolhas a se fazer – sempre há. Acontece que quando a economia baqueia, os juros sobem, a inflação inflama e os salários mínguam, elas transformam-se em poderosas armas contra a miséria: seja do corpo, seja da alma.

Todo mundo sentiu mas ninguém percebeu. Sentimos o incômodo gritante de ter de fazer escolhas que outrora não precisávamos: enquanto alguns abdicam da comida pelo celular, há os que deixam de ir para o exterior para “aproveitar” as belezas turísticas brasileiras. A jovem advogada vendeu o segundo carro da garagem. O senhor engenheiro tirou todos os eletrodomésticos da tomada antes de dormir. Algo dentro de você não para de pedir socorro: recicle essa vida, recicle essa vida, re-ci-cle-is-so-que-vo-cê-cha-ma-de-vi-da.

O (re)ciclo não para. Continuamos a reclamar. O dinheiro parece pequeno perto dos preços que gritam nas vitrines. Passamos a fazer escolhas. Passamos a refletir antes de consumir. Somos obrigados a pensar. Pode ser que a consciência ainda não tenha batido tão forte à sua porta como a crise econômica o fez, mas, inconscientemente, suas escolhas estão te amadurecendo sem que você perceba. Você sente muito não poder trocar sua TV de tubo pela mais nova geração digital televisiva. Você sente muito ter de engavetar mais um cartão de crédito para evitar cair em novas tentações no shopping. Você sente muito ter de repensar seu estilo de vida para que as cores vermelhas do seu saldo bancário não se transformem no sangue escorrendo pelos seus próprios pulsos.

O que você não sente, talvez, é que o seu consumismo frenético tem nos levado a esse limbo de grandes escolhas desde antes do Tratado de Kyoto, muito antes do Crash de 1929, muito antes de a Apple invadir nossos sonhos mais inocentes de consumo. Talvez você não sinta que o ciclo da natureza está recomeçando e que tudo o que insistimos em chamar de “crise” nada mais seja que o primeiro passo para a nossa evolução. Sem querer, estamos escolhendo passear pelo Brasil ao invés de chupar as bolas dos europeus. Sem querer, estamos lembrando o quão cheio já está o nosso guarda-roupas antes de comprar mais uma peça . Sem querer, estamos tendo de valorizar os poucos clientes que ainda nos restam e sermos criativos para nos manter no mercado. Sem querer, você está abdicando de excessos em prol do universo e você… você nem percebeu!

É claro que a evolução não vem para todos e nem todos precisam fazer escolhas. Não se iluda: enquanto você faz o desserviço de propagar as reclamações de quem com muito dinheiro sempre vai contar, quem com muito dinheiro conta continua fazendo passeios de barco e limpando a bunda com seus valores. Por outro lado: que te importa? Se a grama do outro sempre será a mais verde, que tal parar de invejá-la e cultivar o seu próprio jardim? Um jardim de escolhas conscientes, de opções mais sustentáveis, de esperanças renováveis, de recursos recicláveis e de consumo responsável?

A crise econômica passa despercebida aos olhos de quem passa despercebido à sociedade, mas talvez seja ela a nossa grande oportunidade de mudar para melhor, de nos reciclar: tendo menos e sendo mais.

Entre juros jurados, inflações infladas e bolsas desvalorizadas, meus olhos batem na última matéria que li nesta manhã cálida de um novo dia que se recicla: Quem são as pessoas que moram nas ruas de São Paulo? Elas também aumentaram, assim como os juros. Elas são números extensos. São nomes que nós jamais descobriremos e mortes das quais nunca saberemos. São escolhas. Escolhas de quem retém o poder, o dinheiro e a informação. Escolhas de quem faz a sua crise. Escolhas de quem precisa do seu consumo para manter a ilusão da economia girando. Escolhas de quem não quer que você recicle seu ciclo!

Você vai escolher o quê? Se comparar ou se conectar com você mesmo? Chorar a crise ou agradecê-la? Olhar para o outro ou olhar para dentro? Reclamar ou se humanizar?

A escolha é sua.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

Comments

  1. Luan Cherubim Says: janeiro 18, 2016 at 11:48 pm

    Parabéns! Perfeito! Sensacional! Sutileza para refletir sobre um assunto tão “de$e$perador”.

  2. To apaixonaaaada. Um texto mais lindo que o outro. Além de darem “um tapa” pra acordarmos. Ameii s2

  3. Maria de Fátima Assis Says: abril 26, 2016 at 11:06 pm

    Textos belíssimos Leticia!Continue a dar asas ás palavras que lambo-as com gosto, rsrsr. Bendita hora que encontrei essa página e nela me encontrei também. Gratidão!! Abraços. Fatinha Assis

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