Estou indo embora… de novo. Coração Guia / Cronicando / Destaque

“Por que você faz isso?”, perguntou minha mãe quando anunciei que ia viajar. Sozinha. De novo.

– Você só vai entender quando fizer o mesmo. – respondi.

Pode parecer grosseiro, eu sei, mas como explicar o chamado da vida? Como fazer-me compreender essa necessidade aparentemente absurda de carregar a mochila de roupas confortáveis, uma câmera, papel, caneta e alma? De que maneira se desenha o movimento da vida convidando para dançar um samba-a-dois-por-mim em frente ao mar?

Sim, estou indo embora de novo. E faço isso sem motivos, sem razões, sem porquês. Não estou farta da minha rotina, não odeio meu trabalho, nem cansei do meu namoro. Não preciso de um tempo longe de todos, só quero criar mais espaço dentro de mim. Quero oferecer aos meus olhos novas miragens para que eles possam continuar comunicando à minha mente os jogos de luzes e sombras que fazem do mundo esse colorido tão plural. Tenho anseios por cheiros desconhecidos que invadam meus sentidos mais delicados e ressignifiquem o que um dia costumava chamar de perfume. Estou com precisâncias de gustar sabores amargos e azedos e ocres que me amarrem as papilas gustativas e me despertem a saudade do tempero manso da água de arroz do meu lindo, do meu bem.

Estou indo embora. E, mais uma vez, faço isso sem roteiro turístico na manga. De maneira quase matuta, evito dar detalhes dos meus passos para não ter de frustrar esperanças alheias, segredando aos meus comparsas de todos os dias que não entrei no Coliseu, não vi Milão do alto do Duomo, não passeei de gôndola em Veneza, nem pretendo fazer check-in nas praias mais paradisíacas de Ubatuba. Faço meu giro, serena, dado que sei da decepção de quem descobre que não viajo pelo que se espera do destino, mas sim pelo que preciso sentir do caminho.

Estou indo embora, e não é para tomar sol o dia todo enquanto petisco de frente para o mar (muito embora nada me impeça de fazê-lo caso me calha o desejo ali), nem ao menos para dizer que fui. Estou indo para conhecer sorvetes e tomar pessoas. Estou indo para escrever fotografias e tirar poesias. Estou indo para me perder nas ruas pequenas de cidades feias e surpreender-me com a desgostosura do cotidiano de quem não quer ver beleza em nada do que poderia em tudo ver.

Vou e não volto. Nem que quisesse seria possível retornar. Como é que se volta ao estado original o ser que se abre para o novo, de novo? E de novo, e de novo, e… de NOVO!? Não sou eu quem digo, foi Einstein quem nos contou:

“A mente que se abre para uma nova ideia jamais retorna ao seu tamanho original”

Foi isso aí, ou coisa do tipo.

Então, eu pergunto: Por que você não faz isso?

Por que não se abre para uma nova ideia? Por que tenta voltar ao seu estado original, mesmo sabendo que ele já te ensinou tudo aquilo de que precisava? Por que alimenta a pão-de-ló esperanças que nem te pertencem realmente? Por que vê tanta estranheza no nomadismo natural da alma humana? Por que segue o mesmo roteiro dos seus amigos? Por que faz as mesmas viagens que seus pais faziam? Por que me tomas como impermanente se a vida por si só é uma eterna mudança?

Sim, estou indo embora. Vou e deixo cá e lá, de mim, um bocado. Assim como foram ficando por onde já passei os meus pedaços. Vou levando um aprendizado aqui, uma amizade acolá, e jogando no mar e no vento as peças que não me servem mais. Vou e não tenho pretensões de contar-te os meus porquês – ainda que eu os soubesse. Vou e não carrego esperanças de descobrir-me melhor ou mais bonita, nem mesmo menos inconsequente. Vou e não peço que a criatividade compareça ao encontro que marquei com ela no boteco de esquina que ainda não conheci.

Eu vou e só.

Vou só.

E é só.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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