Meu amô precisa ir embora – e eu também. Cronicando

Meu bem fez as malas e eu fiquei para trás. Deixei-o, sorridente, no seu ponto de partida, com um pouco de coração apertado e alguns ponteiros de relógio sobrando na bolsa. Foi só, voltei só. Fomos sós em direções opostas, com um fiozinho dourado tilintando dentro do peito, mas sem urgências sobre a demora que levaria pra ele voltar. Eu, tão acostumada a tê-lo como porto seguro, tão habituada a zanzar por aí sem direção para depois me entornar nos seus braços: fiquei.

E o que fazer quando o outro parte?

São tantos caminhos… qual trilhar? Ora, que tal aquele no qual posso caminhar para dentro? De meias? Meias cor-de-laranja com bolinhas brancas. Sentada no sofá, com as pontinhas dos dedos dos pés sendo esquentadas pelo sol da tarde que escapa à janela da sala e é mastigado pelo algodão colorido que os cobre. Com uma bacia de pipocas recém-estouradas no colo, uma série descompromissada – que ele jamais escolheria para nós – rodando na TV, um brigadeiro-de-mãe na panela preta e aqueles ponteiros massageando o tempo que restou, só, em mim.

Ah, que delícia estar só“, sente ele também, do lado de lá, aproveitando para ser feliz consigo, botar o papo em dia com os amigos, falar bobagens sobre as quais não compreendo, contar vantagens do seu time do coração. Que delícia ser só, às vezes, especialmente quando bate aquele sufoco de se tornar tão o outro que, talvez, quase não se reconheça quem se é, o que se faz, o que não se quer mais. Como é bom dar, com a distância, alongamento ao sentimento que se construiu aqui dentro, mas que, de tão exprimidinho, vez ou outra parece atrofiado, entortado, esfriado.

Meu bem fez as malas e o nosso sol se repartiu em dois, se duplicou; multiplicou a tarde que dormiu dentro de nós antes de a noite sossegar nossas cabeças doloridas. A manhã sentou mansinha na minha cama de solteira, tirou minhas meias de bolinhas e me chamou para dançar. Ele provavelmente não acordaria tão cedo para me acompanhar no baile de um domingo matinal; mas eu estava só: ai, que delícia estar só!

Bailei de cá, despertou de lá. E quando minha dança se findou, fui passear pela praça que recebia um evento cultural da cidade, abraçar conhecidos, reconhecer desconhecidos, observar o amor acontecer. Foi quando meus olhos se enlaçaram ao abraço demorado de um casal de namorados recém-começados. “Ai, que saudade que me deu do cê“, pensei, sem dores no coração. Do contrário, abri mais o peito para expandir a sensação e ver se ela chegava até o meu amô. Chegô.

Foi bom enquanto durou. Esticamos nosso amor feito elástico de moça-menina que pula brincadeira de menina-moça. Cavucamos espaço dentro de nós para caber mais histórias, mais olhares, mais cumplicidades, mais amor. Foi bom enquanto durou nossa solidão, mas que bom que meu bem já está pra voltar. Quase nem parece que foi tão pouco tempo, talvez eu queira mais um bocado de mim mesma; talvez ele também, mais tarde, peça mais espaço para se espreguiçar. Mas quando vejo nossa foto aqui no porta-retrato do meu lado esquerdo, enquanto escrevo mais um texto que desenha em traços leves outras novas linhas do que somos nós, sinto o quão especial é partilhar a vida com seres que respeitam nossas trilhas e também amam o estar a sós.

Meu amô precisa ir embora, e tudo bem. Ele quer um tempo longe, e eu também. É tão bom ter um ao outro, eu sei, mas se a gente quiser ficar sozinho, o que é que tem?

Hein?


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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