Nossa primeira vez Coração Guia / Destaque

Era a nossa primeira vez – a primeira em cinco anos. Quem poderia imaginar que levaria tanto tempo para nos descobrirmos assim? Qualquer um poderia dizer que nunca aconteceria.

Mas aconteceu. Trocamos o olhar cúmplice de crimes contra o tédio das madrugadas, e deu-se início ao toque. Fechamos portas e janelas para que o som não vazasse os tijolos acimentados e alcançasse o sossego dos vizinhos. E enfim, sós: você no violão, eu na voz.

Enquanto os tons impetuosos dos seus dedos tocavam o desafinado dos meus lábios, sorríamos, encantados, qual criança que descobre o novo. Um novo eu, um novo você – um novo nós. Pulávamos do repertório nacional para os gringos, criávamos novas possibilidades simplificadas, arranhávamos a música com a qualidade de quem não conhece infelicidade.

Horas? Sei lá quantas. Percebi que o dia três virou quatro, e lá estávamos nós: em par. Não lembrava se era quinta ou se era quarta, se foi ontem ou se amanhã será. Cantamos o que todo o mundo sabia da maneira que só o nosso mundo podia ouvir. E eu te conheci de novo: muita barba, cabelo pouco e o corpo negro reluzente das cifras no seu colo quente.

Agora, quando cruzo a sala-de-estar, descanso os olhos no meu velho violão e sorrio com a plenitude de quem está pronta para enfrentar as piores tempestades da vida dançando nas cordas do teu coração.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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