O perfume viajante Cotidiano / Cronicando / Destaque / Recomendados

Engarrafada em um vidro avermelhado, que veio guardado em uma lata cilíndrica pouco convencional, a água de colônia francesa chegou ao calor brasileiro sem reclamações. Apesar do rótulo rústico e do design bastante tradicional (quase medieval) europeu, sua válvula de escape era finalizada pela fricção do spray – típica do século XXI. Foi escolhida a dedo como uma lembrança e que, ao seu destinatário, tornou-se muito mais que uma simples água de colônia. Aqui no Brasil, afinal de contas, toda água cheirosa é chamada de perfume e, no coração daquela moça, toda “lembrancinha” era chamada de memória.

Ela era daquelas que não gosta muito de acumular coisas e, por isso, tinha apenas dois frascos de perfume: um para o trabalho e outro para sair à paisana. O perfume viajante chegou, então, para completar a vida daquela menina que tanto odiava a rotina e tanto amava viajar.

Fazia parte daquela combinação química perfumada toda a contradição de uma mulher: suave e marcante a colônia foi deixando um rastro de memórias parecidas na sua alma. Isso porquê a menina destinou o uso do novo perfume apenas para os dias em que estivesse viajando. E assim foi: São Paulo, Minas Gerais, serras, cachoeiras, praias, frios e calores que entravam imediatamente naquele frasco assim que o perfume saía pela válvula spray. Sua pele parecia sentir o frescor cigano daquele perfume que, como mágica, absorvia todas as histórias pela moça vividas. A lata ainda os acompanhava pelo caminho, impedindo que uma queda desastrosa fizesse o vidro vermelho em mil pedaços espalhados pelo chão de algum hotel, e dava um pequeno conforto à moça, que se sentia mais segura assim – atrapalhada que era.

Vez em quando, a moça quebra as regras do seu próprio “manual da alma livre”, desenlata o perfume e o borrifa pelo corpo nu, recém-banhado, mesmo quando só está em casa. Fecha os olhos, arreganha as narinas e sorri. De repente, todas os seus destinos estão impregnados à sua pele, como seu colo, pescoço, nunca, seios, ventre, pulsos e coxas fossem um mapa mundi, começando pela França – na ponta do mamilo esquerdo –, passando pelo umbigo, fazendo curva em seu sorriso e sem previsão de retorno ao coração: coração este que, apesar de todas as novas paisagens, tem tenda armada no interior do nosso sertão.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

Comments

  1. Lindo o que você escreveu sobre sua mãe. Bem verdadeiro para quase todas as mães!!!!

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