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Por trás do Lambida

A primeira coisa que quis ser na vida foi professora; não só porque a minha mãe o era, mas também porque admirava profundamente o carinho com que a tia Anita tratava cada um de nós, ali, naquele momento tão ímpar de descobertas, cores, joelhos ralados e muito bichinho geográfico na sola do pé.

Depois, quis ser bailarina. Mas confesso que nunca fui a mais desenvolta. Abandonei o colã depois de algumas apresentações na infância e fui tratar de querer ser outra coisa: criança escritora.

Desde antes de aprender a ler e escrever, ficava encantada com as histórias mágicas contadas e recontadas por minha mãe antes de dormir. Já na cama, esperava ansiosa pelos ápices dos enredos os quais já conhecia de cor, de coração – como fosse uma oração.

Até que comecei a me tornar adolescente, conhecer um pouco da vida adulta e perceber que eu queria ser de tudo um pouco. Mãe dizia: “você não pode abraçar o mundo, Letícia”. Entristecia-me. É, eu realmente não podia abraçar todos os mundos, mas podia ser tudo o que eu quisesse, sim. E hoje, só por hoje, aprendi o mais importante de todas as atividades profissionais que tive a oportunidade de exercer e que ainda o farei: eu sou, sim, de tudo um pouco.



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Sou professora, escritora, redatora, dançarina, leitora, praticante de yoga, uma pequena mulher, uma grande menina. Sou de tudo um pouco porque entendo que sou nada. Sou nada, porque tudo é impermanente. Sou nada porque o nada me permite ser tudo. Sou tudo para poder apenas ser – e mais nada.

Você, que aqui chegou: acomode-se. Seja bem-vindx a esse canto encantado do meu mais íntimo ser que divido com o mundo. Sinta-se à vontade, perca a noção do tempo, enlouqueça-se com essas palavras que saem do lugarzinho mais profundo do meu coração; do meu universo. Leve o que for bom, deixe o que não quiser pesar na bagagem. Permita que a casualidade dessas lambidas anacrônicas reflitam nas águas límpidas do seu ser e promovam aquilo a que estamos buscando todos os dias, muitas vezes sem nos darmos conta: a autorreflexão, o despertar.

Entre – sem hora pra sair. Conecte-se – sem medo de voltar. Desperte – sem pressa de se perdoar.

Leticia

Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã.