Psiquiatria não é vilã; vilão é o nosso preconceito. Destaque / Opinião / Reflexão

Eram onze horas da manhã quando cheguei na barra funda procurando passagem pra Rio Preto, uma semana antes do natal. Se eu tivesse sorte, conseguiria uma passagem antes das três da tarde. Tive. “O próximo sai às 14h”. A janelinha do fundão tava vaga. Respirei fundo enquanto a máquina cuspia minha passagem (eu preferia as antigas, sou dessas mesmo), olhei no relógio e fiz três vezes a conta nos dedos de quanto tempo eu teria de esperar sem fazer porra nenhuma. Pensei em ligar pra minha tia, mas ela iria querer me buscar e eu não queria dar trabalho. Procurei uma bugiganga pra enganar o estômago e dei de cara com a livraria. “Boa ideia, um livro!”. Passei os olhos pelos famigerados [pausa para google] Nietzsche e Bauman; folheei umas autoajudas, mas este livro de capa PB, com acabamento simples, páginas amareladas, textura macia e cheiro de revista burguesa me enfeitiçou. Tentei buscar alguma coisa mais simples e positiva, algum livro mais colorido e curto, com alguma frase de efeito tipo “confie” na capa, mas não rolou, não. Tive de levar. Joguei os dez centavos do troco em uma das sacolas que carregava e fui caminhando calmamente até minha plataforma. A rodô tava lotadaça, mas assim que eu suspirei (imaginando que não ia conseguir começar a leitura tão logo), uma moça levantou pra pegar o ônibus dela e eu me acomodei, arisca como um gato. O banco ainda estava quente. Comecei a leitura. Meu ônibus chegou (esse tempo não é verossímil).

Levei pouco menos de três dias (no total das horas) pra engolir o Psiquiatria (me dei a intimidade de chamá-lo assim) e senti-lo revirar minha consciência do avesso.

E é por isso que ele merece este textão.

Às vezes, a gente fica buscando ler livros com títulos famosos ou de autores super renomados e não confia na nossa própria intuição na hora de fazer as nossas escolhas (vale pra livro, vale pra vida). Não que as obras de arte da literatura e filosofia não sejam igualmente engrandecedoras, mas às vezes simplesmente não é o seu momento de descobrir porque Nítchi chorou.

Eu choro, as pessoas que eu amo choram e as que eu não amo também. Existem [pausa para google] 121 milhões de pessoas sofrendo de depressão no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. “A organização projeta que, em 2020, a depressão será a segunda maior causa de incapacitação no mundo.” [sic]. Mas ‘depressão é coisa de gente que não tem o que fazer’, ‘doença mental é coisa de gente louca’, ‘fazer terapia é frescura’, ‘tomar remédio é fraqueza’, ‘é preciso ter fé’, ‘não confia nesse médico, não’, ‘minha receita é a cerveja kkkkkk’.

Mas a gente enche o rabo de drogas todos os dias e tá tudo bem. São açúcares, sais, industrializados, aspirinas, anticoncepcionais, nicotina e muita, mas muita arrogância. Todos os dias. E tá tudo bem.

A gente aceita que o diabético seja diabético, que o hipertenso seja hipertenso, que o cachaceiro seja cachaceiro (sou), mas a gente não aceita quem tem distúrbio mental. O termo “doença mental” soa como um martelo magistrado de titânio batendo com toda a força nas nossas cabeças: “você é fraco, você é fraco, você é fraco” ou “o coleguinha é fraco, o coleguinha é fraco, o coleguinha é fraco”.

E tudo isso por quê? Por que somos ignorantes. A gente não sabe e nem quer saber. Fazemos de conta que não é com a gente e empurramos a dor do outro pra baixo do tapete como se fingir no Facebook que somos felizes fosse resolver a angústia que cada vez mais seres humanos têm sentido se alojar dentro do peito.

Mas tem um negocinho muito simples que só depois dessa leitura eu comecei a enxergar: DEPRESSÃO NÃO É FRAQUEZA (falo dela porque é a mais recorrente e conhecida atualmente). E se você está lendo este texto e é ou conhece alguém diagnosticado, repita mais uma vez pra si mesmo, em voz alta, se possível: DEPRESSÃO NÃO É FRAQUEZA, DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA. A depressão faz parte das nossas vidas como todas as outras doenças com as quais já estamos acostumados porque achamos que sabemos um pouquinho mais sobre elas. A depressão envolve toda a sociedade e não existem culpados – que não o sistema (que, a propósito, não pode ser julgado).

Vamos parar de cagar regras de autoestima e autoajuda pros nossos amigos e pra nós mesmos. Existe um órgão chamado cérebro que precisa de reações químicas para funcionar tanto quanto o seu coração, seus rins, seu intestino ou a sua pele. Existe também uma série de caminhos desconhecidos que permeiam os mistérios da mente humana e animal que dependem da saúde desse órgão para funcionar relativamente bem.

As palavras positivas vão ser de grande valia, sair pra balada vai ser de grande valia, relacionar-se saudavelmente com os outros vai ser de grande valia, yoga (amo /sou) vai ser de grande valia, botar a cara no sol vai ser de grande valia, enfiar o ego no cu (risos) vai ser de grande valia, sorrir para o espelho vai ser de grande valia, mas tudo isso será uma grande bolha de inutilidade se o órgão responsável por essas escolhas cognitivas não estiver saudável e, muitas vezes, em meio a essa sociedade escrotamente desumana na qual vivemos, é preciso mais que vitamina D, banho de sol, terapia, yoga, alimentação saudável, tempo livre e qualidade de vida para que ele funcione bem. Às vezes é preciso respirar fundo enquanto o médico cospe a tão ‘tenebrosa’ receita (assim como a maquininha cospe nossas passagens e nossos comprovantes de pagamento), passar na farmácia popular, bater no próprio peito e dizer: tudo bem tomar remédio.

Nós já fomos longe demais com a cegueira provocada por esse estigma social (essa expressão bonita eu tirei do livro e joguei no google pra confirmar se tinha entendido direito). As pessoas estão se matando.

AS PESSOAS ESTÃO SE MATANDO. Você entende o que isso significa?

Isso significa que passou da hora de você, eu, as pessoas que eu amo e as que eu não amo procurarem entender o MÍNIMO sobre a dor do outro e tentar julgar um pouco menos a cada dia. Tá na hora de abraçar aquele brow esquisitão que às vezes te deixa no vácuo por semanas porque tem vergonha do que você vai pensar dele e dizer: “eu te amo do jeito que você é, cara”. TÁ NA HORA DE A GENTE PARAR DE SER CUZÃO.

Eu to tentando aí. Vou ajeitando uns textão aqui, lendo uns livro acolá (ando viciada em não marcar os plural), escutando a história de alguns desconhecidos que esbarro pelas esquinas da vida, pedindo desculpas quando vejo que fiz cagada (e faço, hein! misericórdia!), sonhando que palavras apenas não sejam pequenas [sic – gostei disso] e me desconstruindo todo fucking dia. E ainda assim, eu continuo sendo uma grande cuzona, egoísta e julgona; mas… eu to tentando.

Se não quiser ler o livro, tá deboa. Se não der pra dar um google (não to recebendo pela propaganda, juro) e ler umas listinhas leves sobre o assunto, tá tranquilo. Mas a gente precisa entender logo que o outro não precisa ser perfeito para viver uma vida plena. Daqui a pouco a vida acaba, e você ainda tá choramingando porque ‘não queria que ele/a sofresse tanto assim’. Aceita. Aceita que o outro pode sofrer, chorar, ter depressão, tomar remédio e não ser quem você esperava que ele fosse. Aceita e vai sofrer e chorar e ter depressão e tomar remédio em paz. Parece loucura (e não é?), mas a probabilidade de você esbarrar com a felicidade assim é muito maior do que lutando pra construir a imagem que a disney idealizou pra você.

Amar o outro – e a si mesmo – do jeito que ele – e você – é talvez não seja o começo mais fácil, mas já é um bom começo.

P.S.: esse texto é uma carta pra mim.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

Comments

  1. Muito bacana.

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