Quando fui na frente Cronicando / Destaque

“Vai na frente!”, disse a Con, e meu coração congelou.

Estávamos passeando de bicicleta pela cidade há algumas horas e, desde então, ela sempre ia na frente, guiando minhas pedaladas. Eu, desengonçada que sou, observava atentamente seus movimentos experientes: reduzir a velocidade nos pequenos buracos que o tempo cavuca no asfalto esfolado de areia ou esticar as pernocas para minimizar o impacto da bunda com o banco nas elevações que as raízes das árvores enervam no chão.

Foi na noite anterior que a conheci. Estava bebendo uma cerveja no barzinho do hostel e arranhando meu inglês capenga com uma holandesa muito simpática, que, junto com o Júlio – o responsável pelo bar – ia me explicando a gramática na prática:

– You take photos, but you don’t ‘take’ ice cream. You better ‘have’ an ice cream.

Con chegou uns minutos depois de mim, entendendo lhufas do nosso papo estranho enquanto eu tentava contextualizá-la. Ela já era conhecida do Júlio e, por isso, me senti à vontade na sua presença.

Acabamos por bater muitos papos, e minha admiração por essa mulher porreta começou a parecer cada vez mais real.

Na manhã seguinte, trabalhei no livro que estou escrevendo. Con esperava um amigo da praia vizinha que deu o bolo. Por fim, almoçamos juntas e passamos a tarde toda pedalando.

Mas, quando estávamos voltando do Pereque Açú e ela soltou esse “Vai na frente”, eu quase caí das pernas. Como assim, ‘vai na frente’?, pensei. Foi assustador – mesmo sabendo que era o caminho de volta, o que eu acabara de conhecer.

– Na frente?
– É, vai você agora.

E fui.

Poucos metros adiante, paramos para assistir a uma apresentação do grupo de maracatu aqui da cidade, que estava gravando um vídeo. Mas, ainda assim, tudo era iniciativa sua. Eu só ia seguindo o fluxo, como água, e maravilhando-me com as surpresas do caminho.

Em algum momento, já no fim do passeio, lembrei que era dia dos pais. Eu estava em cima da bike, observando a leveza com que ela desviava dos obstáculos e enfrentava seus medos. Ela, que tem quase o dobro da minha idade, não tinha vergonha de revelar suas fraquezas. Ela, que vive longe dos dois filhos, não exitava em me ensinar as pequenas coragens da vida numa tarde efêmera de domingo.

É claro que não precisamos estar sempre à frente – seja no passeio de bicicleta, seja nas iniciativas da vida cotidiana. De repente, o aconchego de ter alguém em quem confia te levando também é aprendizado. De repente, seguir lado a lado é ainda mais interessante. O que talvez ela tenha querido me dizer – mesmo sem se dar conta – é que não podemos nos acomodar: nem atrás, nem do lado, nem na frente.

Às vezes, dá preguiça. Outras, medo. No meu caso, agora, dá um sintoma esquisito que chamo de ‘cuoris apertadinhum di saudadix’. Vivo as experiências só, e muitas vezes me pego olhando para o lado, pra ver se sinto a companhia dos meus amores que correm comigo dia a dia, lado a lado.

Faz parte. Eu sou de peixes, sou da água. Preciso ouvi-la quebrando nas rochas ou se espatifando nas pedras pra me lembrar de quem sou. E cá estou. Na frente, ao lado, atrás, ou até mesmo imersa nas águas profundas de mim mesma: estou.

E sou.

E só.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

Comments

  1. A leitura prende, do início ao fim.
    Quando vamos na frente temos a responsabilidade de cuidar do outro para que nada de mal lhe aconteça vindo, principalmente, de frente.

    Há momentos que nem tudo que nos atinge vem pela frente. Quando vem pelas costas será preciso uma grande dose de sorte e um anjo da guarda sempre atento. Porém, aqueles – e não são poucos – que não acreditam em sorte, em anjos da guarda, as vezes não acreditam nem em si mesmos, ainda que vivam arrotando sua fé em si, fatalmente estarão mais expostos a serem atingidos pelas intempéries, não importa quão atento você esteja caminhando à sua frente.

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