Sobre Chester, suicídio e esperança. Cronicando

Você não vê que está me sufocando?

E eu te pergunto: o que você vê?

A morte repentina de mais uma mente brilhante do rock (24/07/2017) causa mais do que dor – causa angústia, medo, sufoco. Isso porque o que Chester Bennington desenhava em suas canções era muito mais do que o reflexo de sua depressão e a tentativa inútil de escapar à pressão por meio das drogas. O que ele traz à tona em suas letras são questionamentos da alma humana, aquela que se sente sufocada não só pelos relacionamentos que invadem os limites da sua individualidade, mas também pelas exigências sociais que – não raras vezes – apenas cumprimos sem entendermos muito bem suas razões.

Acontece que sua partida não é apenas uma perda significativa para o mundo artístico, ela também comunica um pedido de socorro. Suicidium: do latim –cidium (golpear, bater, matar) + –sui (si mesmo). Chester, assim como Robin Willians, Kurt Cobain Chris Cornell, mastigava diariamente a amarga face da vida. Eles viam, como poucos o fazem, muito além do véu da nossa doce ignorância. Usavam sua arte para oferecer uma válvula de escape ao mundo que suga nossas energias com a força de uma centrífuga, e, infelizmente, não puderam encontraram caminhos viáveis que pudessem aliviar seus corações da cruel sensação constante de cansaço.

“Estou cansado de ser o que você quer que eu seja,
Sentindo-me tão infiel, perdido sob a superfície.
Eu não sei o que você está esperando de mim.”

Sim, Chester. Eu também me sinto assim, às vezes: cansada de corresponder a expectativas; sentindo-me uma falha do sistema, uma criatura errada no mundo errado. Talvez seja porque as suas aflições encontram-se marcadas em algum canto do meu olhar no espelho da alma. E eu sinto, sinto muito… assim como você também sentia.

E o que você sente?

O medo de não dar certo? O sufoco da rotina? A angústia sobre os arrependimentos?

Respire.

Quando um ser just like you (assim como você) decide que é o fim da linha nessa viagem que chamamos de vida, um revólver dentro de nós dispara uma tonelada de dúvidas. Se essa pessoa tiver conquistado a admiração do seu público ao longo da vida, dividindo suas ilusões por meio da arte a fim de fugir das suas próprias frustrações, sentimos como se (mais) uma bomba-relógio fosse acionada em nossos corações que vomitam ansiedades e decepções.

Ainda assim, se o que você vê é só violência, guerra e desesperança, talvez seja o momento de se lembrar que para cada tristeza, há um ponto de luz nos esperando do outro lado dos nossos suspiros. Para cada desespero, há um fio de esperança mantendo nossa coluna ereta. Para cada despedida repentina, existem milhares de novas chegadas na estação do amanhecer.

E é isso o que vejo quando penso nas influências deixadas pela banda Linkin Park. É isso o que sinto quando ouço, com sabor de nostalgia e esperança, a música Numb tocando meus poros, fazendo estremecer levemente cada um dos meus órgãos internos: eu vejo e sinto esperança.

Chester cantou sua dor até onde pode, na esperança de encontrar seu caminho. E, embora ele tenha nos deixado de maneira abrupta e impactante, é preciso deixar florescer em nós o olhar que nos permite ver o quão especiais são as sementes que ele deixou com seus textos, para brotarem em nossos caminhos. É preciso compreender que o que ele pede não é “vem comigo, no caminho eu explico“, mas sim “seja a mudança que você quer ver no mundo“.

Você é?

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Texto escrito a pedido do leitor Tiago Luquetti.

Foto de capa: Culturamente.it.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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