Você é gentil consigo mesma? Cronicando / Recomendados / Sentindo agora

Muitas de nós ainda estamos tentando provar que somos capazes: capazes de trabalhar, de ganhar um salário digno, de sermos mães, de sermos filhas, de sermos amigas, de sermos donas de casa, de sermos empresárias, de sermos tudo isso ao mesmo tempo sem dar um ‘pio’ (afinal de contas, nós não lutamos tanto para conquistar tudo isso?), de simplesmente SERMOS, enfim.

Assombradas por nossos próprios sonhos que se tornam pesadelos perante uma sociedade que nos encara com o olhar de desprezo, pena ou repreensão; nós, mulheres, temos vivido uma corrida desesperada para dar conta de todos os papéis que nos vêm sendo atribuídos ao longo da história, ao mesmo tempo em que acumulamos no peito a dor de querermos parecer fortes o tempo todo para todo o mundo.

A questão é: nós precisamos MESMO parecer fortes o tempo todo para todo o mundo?

Se fôssemos as máquinas reprodutoras que o sistema capitalista nos molda desde cedo para ser, a resposta seria certamente positiva. Mas, felizmente, não somos máquinas; somos humanas. Não é preciso ser uma especialista na psicologia comportamental para aceitar essa condição sublimemente frágil (evite associar a fragilidade intrínseca do ser HUMANO com o estigma ‘sexo frágil’, ok? Não é disso que estamos tratando aqui). Somos, sim, seres de natureza frágil (todos nós, humanos), sensível e impermanente, expostos a uma avalanche de responsabilidades acumuladas, expectativas construídas com base em contos de fada modernos e ‘embranqueados’, frustrações que adormecem nossos sentidos mais aguçados e uma necessidade doentia de provar aos que nos cercam o quão invencíveis, fortes, incríveis e maravilhosas nós somos.

Nesse balaio que se emaranha em nossos inconscientes, nos vemos atadas por um tratado cruel que nos é empurrado goela abaixo há muitos séculos: o do silêncio.

É, minha amiga, a gente se cala e os motivos para tal autocastração são inúmeros: tememos o desprezo dos filhos, a piedade dos pais e a repreensão dos amantes. Séculos de lutas e conquistas ainda não apagaram as marcas das forcas em nossas gargantas. As cordas ainda machucam nossas mãos atadas atrás do tronco enquanto sentimos o fogo mastigar a nossa pele aos poucos, começando pelos pés. Ainda temos medo de sermos castigadas por sentarmos de pernas abertas, arrotarmos, falarmos palavrão, abandonarmos as raízes, cairmos no mundo, abortarmos fetos, suarmos o corpo de sexos deliciosamente sujos, subirmos na mesa, dançarmos com o vento e de nos amar.

Sim, muitas de nós ainda estamos perdidas, sem nem saber por onde começar a trilhar o caminho que nos leva a nós mesmas. E as consequências dessa escuridão que se impõe em nossos corações, estimulada pelo machismo e pelo capitalismo, revelam-se seja por meio de ‘leves’ crises de ansiedade até da depressão profunda.

Por isso, nós precisamos respirar. Colocar as mãos na terra, sentir o sol ser absorvido pelos nossos seios, nadar nuas no rio da vida. Precisamos dar um basta às expectativas que o mundo cria sobre nós, mandar a filha fritar seu próprio bife, libertar os pais da responsabilidade em relação à nossa felicidade, colocar as necessidades do/a(s) amante(s) em segundo (ou terceiro, ou quarto) plano nas nossas vidas.

Nós precisamos nos amar. Temos sede de mergulharmos em nossos próprios olhos no espelho e de nos redescobrirmos um pouquinho a cada dia. Estamos com fome de mudanças e queremos transbordar as lágrimas que ficaram guardas por tantos e tantos e TANTOS anos na alma coletiva da mulher. Você precisa chorar, mulher! Você pode, porra! Não temos obrigação nenhuma de corresponder aos padrões que nos são impostos, nem de assumir papéis os quais não queremos, muito menos de sustentar sofrimentos e aceitar migalhas.

Mas, para começarmos a entender que não precisamos ser mártires da ‘família tradicional’, é preciso gentileza. Compreender que, apesar de todas as correntes que nos prendem ao imaginário coletivo da mulher perfeita, não precisamos vestir a máscara da vítima sofrida e dilacerada. Aceitar a excentricidade da nossa beleza única e aprender a amar cada marca que o tempo vai deixando em nossos rostos com um sorriso sincero. Agradecer por tudo o que já fizeram um dia por você, mas entender que não existem ‘dívidas’ quando o socorro vem do coração. Encarar as feridas mais sombrias do passado a fim de se autoconhecer, não de se arrastar pelos corredores da vida como um soldado mutilado pela guerra. Entregar-se ao que é genuíno, confiar nos seus instintos mais selvagens, aceitar que quanto mais projetamos nossas expectativas no outro, mais medo de sermos julgadas acumulamos dentro do peito, agradecer as coisas miúdas – como o canto dos pássaros e o trabalhar das formigas –, e, acima de tudo, ser paciente, doce e gentil com você mesma.

Não podemos continuar fazendo de conta que está tudo bem. Não devemos continuar alimentando a subserviência feminina à sociedade moderna. Não precisamos ser aceitas por todos os grupos sociais. A gente só precisa se encontrar, se entender, se aceitar e se amar. Só assim conquistaremos a única força realmente necessária para seguirmos adiante: não aquela ‘de ferro’, que vem da ânsia de provarmos ao mundo que somos capazes; mas aquela da alma, que vem do mar mais profundo e escandaloso do nosso ser para nos ensinar a lidar gentilmente com nossas crises ao mesmo tempo em que redescobrimos a beleza de sermos honestamente loucas por nós mesmas.


Redatora, professora e inventadora, tenho como verdadeira paixão a língua portuguesa e as piruetas que ela dá na ponta de cada lambida. A casualidade é minha amiga; a poesia, anfitriã. Entre - sem hora pra sair.

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